Setor Público Prepara Convergência
Principais
dificuldades para alinhar a contabilidade pública aos padrões internacionais
estão na falta de pessoal qualificado e de investimentos dos estados e
municípios em sistemas de TI.
O
Brasil avança no caminho da consolidação e aperfeiçoamento da estabilidade e do
crescimento sustentável. A partir de 2012, mais um passo será dado nesse
sentido, com a adoção das Normas Brasileiras de Contabilidade Aplicada ao Setor
Público por parte da União, dos Estados e do Distrito Federal. Os municípios farão a transição em
2013. A implantação do novo modelo de contabilidade, que dará
início à convergência do setor público aos padrões internacionais, será um
grande desafio para os governos e para toda a sociedade brasileira.
Apesar
dos imensos impactos positivos que essa convergência trará, é preciso
reconhecer que as dificuldades a serem superadas para sua implantação e
consolidação não são poucas. A mudança de cultura por parte da administração
pública é um dos principais entraves, na avaliação de Paulo Henrique Feijó,
analista de Finanças e Controle da Secretaria do Tesouro Nacional (STN). Ele
explica que há no setor público, de modo geral, o hábito de não segregar os
fatos orçamentários dos patrimoniais, ou seja, de não registrar alguns
fenômenos essencialmente econômicos, como a depreciação. Como primeiro passo
para viabilizar a convergência, a STN e o Conselho Federal de Contabilidade
(CFC) se esforçam para prover capacitação e formação de multiplicadores do novo
modelo de contabilidade, com o objetivo de que haja mais profissionais capazes
de disseminar as novas regras. “Sabe-se que toda mudança de cultura leva mais
tempo, mas quando ela é apoiada em sistemas informatizados, pode ser mais bem
conduzida”, diz Feijó.
Essa
é justamente uma das dificuldades. Segundo uma pesquisa feita pelo CFC, em
parceria com a STN, entre os responsáveis técnicos pela implantação das normas
nos estados e municípios, são
essenciais duas questões: a tecnologia de informação (TI) e o capital
intelectual. Com relação à primeira, constatou-se a falta de
investimento dos estados e municípios em sistemas de informação e em
ferramentas da informática. “Essas deficiências precisam ser superadas por meio
da conscientização dos gestores de que o controle do patrimônio público é
fundamental para o gerenciamento eficiente dos recursos públicos”, avalia
Verônica Souto Maior, conselheira e membro da Câmara Técnica do CFC e
coordenadora geral do Grupo de Trabalho do Comitê Gestor da Convergência
Brasil.
Ela
cita como exemplo de deficiência o fato de a aplicação do princípio de
competência para a receita pública estar mobilizando – e desafiando – os órgãos
arrecadadores nos três níveis de governo. “Não se sabe, nem na União, nem nos estados e tampouco nos
municípios, qual é o valor do crédito tributário dos entes”,
diz Verônica. “Estamos discutindo cortes de R$ 50 bilhões no Orçamento da
União, quando se perdem trilhões em tributos que não são controlados ou
créditos que não são cobrados”, completa ela. “Hoje, uma pergunta de fácil
resposta é: qual o valor do crédito da União decorrente do “Refis da crise” que
foi realizado em 2009?”. “Não se sabe o valor do crédito, nem os contribuintes
são mobilizados para responder a determinados desafios, em função da falta de
uma contabilidade que funcione como ferramenta gerencial e garanta, na ponta,
níveis de eficácia, cujo resultado ainda é desconhecido pela maioria dos
gestores públicos”, diz Verônica. A conclusão é que as soluções continuam sendo
as mesmas, para os velhos e novos problemas, e o país se vê privado de
investimentos em função de cortes de gastos e da elevação da carga tributária.
Capital Intelectual
Quanto
ao capital intelectual, a pesquisa revela os contrastes da educação brasileira.
Há ilhas de excelência, como a Secretaria do Tesouro Nacional (STN), e alguns
estados onde as coisas já estão bem avançadas, como Santa Catarina. Mas o levantamento também mostra que
em certos municípios não há sequer um contador; o atendimento é de
responsabilidade de empresas de serviços contábeis terceirizadas.
Para alterar esse cenário, vários estados e municípios têm instituído grupos de
trabalho técnicos visando discutir a solução de forma conjunta. Isso porque,
além da área contábil, o que se constata é que faltam informações e controles
internos na administração pública. Sem esses dois pré-requisitos, o prejuízo
gerencial e material é imenso.
Muita
cosia, contudo, já vem sendo feita para mudar essa realidade. “Estamos
realizando vários cursos e treinamentos, nas modalidades presencial e à
distância, para a formação dessa mão de obra. É importante notar que já existe
material disponível de excelente qualidade, como os Manuais de Contabilidade
Aplicada ao Setor Público publicados pela STN e elaborados em parceria com o
CFC”, diz Verônica. “Percebemos que o desafio não é ensinar contabilidade, mas,
sim, ter informação sobre o patrimônio público. Dessa forma, a sociedade
perceberá que a contabilidade é um dos maiores instrumentos do controle social
e da tão almejada transparência pública”, arremata a coordenadora.
Na
avaliação de Paulo Feijó, é
provável que os municípios enfrentem menos problemas que os estados e a União
no processo de convergência da contabilidade, uma vez que terão de adquirir
seus sistemas ou mesmo contratar um escritório de contabilidade que utilize um
sistema adaptado. E que, por sua vez, atenda a vários municípios.
“No caso de estados e da União, em sua maioria, eles contam com sistemas
desenvolvidos em plataformas tecnológicas muito antigas; por isso, praticamente
terão de refazer tudo”, diz Feijó. Ademais, foi criado pela STN o Grupo Técnico
de Sistematização para discutir essas regras com os demais agentes que, direta
ou indiretamente, serão afetados pelas novas regras contábeis.
Transparência
Mas qual é a importância dessa convergência da
contabilidade pública ao padrão internacional, a exemplo do que as empresas
privadas fizeram ao adotar normas inspiradas nas IFRS? Sabemos que o setor
privado prima pela eficiência na aplicação dos recursos dada a competitividade
natural entre as empresas. Para empresa privada, é obrigação fazer com
excelência o controle patrimonial, apropriando o consumo de patrimônio aos
processos e resultados. “Já
o setor público, por sua natureza, visa atender às demandas da sociedade, e não
obter lucro”, diz Paulo Feijó. “Contudo, em um contexto de
escassez de recursos frente às necessidades sociais, gerir o patrimônio público
com base nas melhores práticas existentes faz com que seja possível apurar os
custos da prestação de serviços públicos, base para comparabilidade dos
processos entre diferentes gestões”, continua. Isso permite melhorar a
eficiência na alocação de recursos públicos, promovendo, inclusive, a adoção de
práticas que permitam mais ações públicas com menos recursos.
Feijó
acrescenta que, com a
incorporação de dimensões patrimoniais a partir das novas regras contábeis, a
sociedade poderá visualizar, nas demonstrações contábeis, todos os ativos e
passivos do setor público. E, portanto, o valor do patrimônio
público e suas variações. “O orçamento apresenta uma visão de curto prazo,
apenas para o exercício financeiro e muito relacionada com o fluxo de caixa do
setor público. Ou seja, com os ingressos (arrecadação) e os gastos (despesas),
não permitindo a visualização dos reflexos sobre o patrimônio”, analisa. Entre
os valores arrecadados pelo governo se incluem receitas de endividamento
(operações de crédito), que geram passivos para o setor público e deverão ser
pagas em algum momento, com recursos da sociedade. “Se a sociedade não conhecer
o tamanho desse passivo gerado pelo governante, não poderá ter uma dimensão dos
riscos fiscais que estão sendo gerados”, diz Feijó. Para Verônica Souto Maior,
é mais importante a eficiência do gasto público e da arrecadação, “já que não
temos como dimensionar e mensurar o que se perde na administração pública
brasileira, e isso tem reflexos em todos os setores da economia. Esses reflexos
incluem a falta de recursos para os investimentos necessários e o combate aos
níveis de pobreza, a elevação da carga tributária e do “custo Brasil”, analisa.
Sem um modelo contábil, ela acredita, “o país se distancia do seu objetivo
maior de desenvolvimento e de ocupar espaços no cenário internacional”.
As
novas regras uniformizam, até determinado nível, as formas de registro contábil
do setor público. Desse modo, a Federação passará a falar uma única
língua contábil, facilitando o entendimento das formas de registro dos atos e
fatos do cotidiano da gestão pública – sempre com a preocupação de que se
registrem todos os ativos e passivos e não apenas o que ingressou e saiu do
caixa. “A padronização permitirá à sociedade comparar demonstrações contábeis
de todos os entes (União, estados e municípios). E isso, juntamente com o
processo de transparência das contas públicas, possibilitará à sociedade
organizada (sindicatos, ONGs, agências) avaliar melhor a gestão dos
governantes”, analista Feijó. Ele enfatiza que ações de transparência e evidenciação do patrimônio
e suas variações são, por sua própria natureza, inibidoras de processos de
corrupção, embora não tenham o condão de impedir a corrupção em si.
“As
possibilidades de a contabilidade ser utilizada como instrumentalização do
controle social e de combate à corrupção são muito maiores do que supõe nossa
vã filosofia”, diz Verônica Souto Maior, parafraseando o dramaturgo inglês
William Shakespeare. Ela cita como exemplo experiências exitosas: os portais de
transparência que já informam os gastos orçamentários e os repasses da União
para os estados e municípios. Organizações como a Transparência Brasil e outras
tantas têm conseguido monitorar os recursos e sua aplicação no objetivo final
dos programas. Nos últimos dez anos, apenas essa informação possibilitou a
redução de mais de 50% de desvios de recursos, como apontam os órgãos de
controle externo. A conselheira do CFC acredita que outro desafio significativo
é melhorar a qualidade da informação. “Afirmarmos que o município ‘A’ gasta R$
100 mil na merenda escolar pode não ser útil para o controle social, mas se
dissermos a qualquer mãe de aluno que o arroz ou a carne servida na merenda
foram comprados pelo preço ‘X’, ela saberá de imediato se houve ou não
eficiência no gasto público e poderá controlar melhor o esforço da sociedade na
gestão dos recursos públicos.”
O papel das contadorias é fundamental nesse processo de
convergência, pois elas devem ter a consciência de que a valorização e o
reconhecimento contábil pela sociedade passam pela importância do seu trabalho,
tanto no aspecto individual como no coletivo. “Acreditamos que a melhor forma de
contribuição que o setor privado pode ofertar ao setor público é demonstrando
um padrão de informação adequado e nos níveis internacionais, como já vem
ocorrendo no Brasil. E, a partir daí, cobrar que o setor público faça sua parte
para reduzir o sacrifício da sociedade e das empresas na construção de um país
desenvolvido e mais justo socialmente”, diz Verônica.
Fonte: IBRACON.
Matéria postada por Werley Novais
Muito bom o blog! Já está nos meus favoritos...
ResponderExcluirParabéns Werley e, também, aos demais que contribuíram para com a formação do blog!
Caro Eliomar;
ResponderExcluirAgradeço por vossa preferência e pelo apoio. Estamos em busca de um blog que realmente sirva como ferramenta referencial para o auxílo à todos nosso colegas, independente de suas necessidades.