segunda-feira, 29 de outubro de 2012


Como funcionam os créditos de carbono?

A negociação dos créditos de carbono é uma maneira de alguns país reduzirem numericamente as emissões dos gases que causam o efeito estufa. Como isso é feito? Por meio de uma venda. É como se cada país pudesse liberar na atmosfera uma determinada quantidade de gases. Alguns não atingem a meta, e podem comercializar esta cota na forma de créditos de carbono. Outros têm uma atividade industrial tão poluidora que superam o limite e, por isso, compram créditos de quem polui menos ou possui áreas de floresta conservada.

Assim, uma empresa brasileira poderia desenvolver um projeto para reduzir as emissões de suas indústrias. Esse projeto passa pela avaliação de órgãos internacionais e, se aprovado, é elegível para gerar créditos. Nesse caso, a cada tonelada de CO2 que deixou de liberar, a empresa ganha um crédito, que pode ser negociado diretamente com as empresas ou por meio da bolsa de valores. "Mas os países só podem usar esses créditos para suprir uma pequena parte de suas metas", explica Kenny Fonseca, professor do Departamento de Análise Geoambiental da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador associado da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

O objetivo é cumprir as metas do Protocolo de Kyoto, que definiu em 1997  limites para a quantidade de gases poluentes na atmosfera. Mas porque esta preocupação? A resposta está no efeito estufa, um fenômeno natural que retêm parte do calor dos raios solares e mantêm a temperatura do planeta. Quando a concentração de gases como gás carbônico, metano e óxido nitroso, aumenta este fenômeno é ampliado e mais calor é retido na superfície da Terra, o que estaria, segundo alguns cientistas, relacionado ao aquecimento global.
Hoje em dia, os pesquisadores descobriram que não são só os gases que provocam esse efeito. O chamado carbono negro, que é a fuligem da fumaça, também tem papel importante nesse mecanismo. "A fuligem provoca o sombreamento da superfície e esquenta a atmosfera. Além disso, modifica a formação das nuvens, o que muda o equilíbrio térmico do planeta", conta o pesquisador.

Apesar de ser impossível prever com certeza quanto o planeta deve aquecer nos próximos anos, a preocupação para minimizar os efeitos do aquecimento global é recorrente. Uma das críticas ao Protocolo de Kyoto é que só estão obrigados a diminuir as emissões os países na lista de nações desenvolvidas. Ou seja, o Brasil ainda não tem metas a cumprir, apesar de estar na lista dos 20 países que mais poluem. "Ao contrário do que acontece no resto do mundo, 2/3 das emissões brasileiras estão ligadas ao uso do solo - desmatamento, queimadas e conversão de florestas em sistemas agropecuários. O próximo acordo também deve  incluir o desmatamento, que tem a ver diretamente com o nosso país", alerta Kenny.

Fonte: Revista Nova Escola - Abril.

Matéria postada por Werley Novais

segunda-feira, 22 de outubro de 2012



O QUE É CONTABILIDADE AMBIENTAL?


Há uma consciência quase que universal que os recursos naturais são limitados, e não podem mais ser desperdiçados, sob pena de comprometimento do equilíbrio ecológico de nosso planeta.

A contabilidade como ciência apresenta condições, por sua forma sistemática de registro e controle, de contribuir de forma positiva no campo de proteção ambiental, com dados econômicos e financeiros resultantes das interações de entidades que se utilizam da exploração do meio ambiente. Especificamente, tal conjunto de informações é denominado de “contabilidade ambiental”.

Contabilidade ambiental, portanto, é o registro do patrimônio ambiental (bens, direitos e obrigações ambientais) de determinada entidade, e suas respectivas mutações - expressos monetariamente.

Seu objetivo é propiciar informações regulares aos usuários internos e externos acerca dos eventos ambientais que causaram modificações na situação patrimonial da respectiva entidade, quantificado em moeda.

Historicamente, a Contabilidade do Meio Ambiente passou a ter status de um novo ramo da ciência contábil em fevereiro de 1998, com a finalização do "relatório financeiro e contábil sobre passivo e custos ambientais" pelo Grupo de trabalho inter-governamental das Nações Unidas de Especialistas em padrões Internacionais de Contabilidade e relatórios (ISAR – United Nations Intergovernanmental Working Group of Experts on International Standards of Accounting and Reporting).

A contabilidade é uma enorme fonte de registro, interpretação e informação de dados empresariais e governamentais. Sua utilidade social é bem expressa pelo então presidente da França, Jacques Chirac, em seu discurso na sessão plenária de encerramento do XV Congresso Mundial de Contadores, em 1997:

"... A profissão contábil desempenha um papel fundamental na modernização e internacionalização de nossa economia. Isso porque vocês não se restringem a cuidar de contas. Vocês são conselheiros e, às vezes, confidentes das administrações de companhias, para que têm um importante papel a desempenhar, especialmente em assuntos sociais e tributários. Vocês orientam pequenas e médias empresas e sua administração, simplificando as alternativas, que ainda são demasiado complexas. Vocês desempenham, portanto, um papel no desenvolvimento das possibilidades de emprego, o que merece um especial registro de reconhecimento...".

VANTAGENS DA UTILIZAÇÃO DA CONTABILIDADE AMBIENTAL 
Em decorrência da crescente escassez de recursos naturais e da degradação da natureza, em todo o mundo acirrou-se o debate econômico, político e social sobre tais situações e as medidas necessárias à reversão deste cenário. Daí a necessidade de se conhecer o problema não somente sob seus aspectos mais amplos – mas também específicos: boa parte da degradação ambiental é decorrência dos próprios entes de produção de bens e serviços – o chamado “progresso a todo custo”. 
Como não é possível (nem desejável) reverter o progresso, pois os sistemas econômicos necessitam atender à demanda de bilhões de pessoas do planeta terra – há de se encontrar respostas às tais questões mediante um amplo e contínuo trabalho de aferição dos eventos ambientais por todos agentes (governo, entidades privadas e ONG`s) – daí a contabilidade, como ciência, tem a vantagem de oferecer meios de aferição econômica de tais políticas. 
A utilização irresponsável de meios naturais para a produção de bens e serviços, além dos danos ambientais óbvios, tende a gerar para a entidade que o provocou o repúdio da sociedade e dos consumidores. Economicamente, a gestão ambiental não precisa ser encarada como “um custo a mais”, mas uma ótima oportunidade de demonstrar a responsabilidade social e melhorar a imagem mercadológica – e por conseguinte – gerar um saudável ciclo de lucros sustentáveis a médio e longo prazo.
Para a tomada de decisões e avaliação regular de tais políticas ambientais, a contabilidade é imprescindível, pois gera informações relevantes aos administradores de qualquer entidade. 
Poderíamos sintetizar as seguintes vantagens da utilização da contabilidade ambiental: 
- identificar e alocar custos ambientais, de maneira que as decisões de investimentos estejam baseadas em custos e benefícios adequadamente medidos;
- permite aferir, economicamente, as reduções de gastos com água, energia e outros recursos, renováveis ou não;
- gera informações e demonstrativos sobre a eficácia e viabilidade econômica das ações ambientais;
- a publicação do balanço ambiental gera transparência da gestão e uma potencial melhoria de imagem da entidade produtora perante o público;
- a contínua correção das ações ambientais, em decorrência da utilização de dados físicos-contábeis, contribui para a sociedade como um todo – pois haverá redução do nível de agressão à natureza na elaboração de produtos e serviços indispensáveis.

Júlio César Zanluca é contabilista e autor de várias obras na área contábil e tributária.

Fonte: Portal de Contabilidade.

Matéria postada por Werley Novais

quarta-feira, 10 de outubro de 2012


Contador: Liberte-se!*


Clauser Oliboni Voltaine

Graduando em Direito da Universidade de São Paulo



Este trabalho é baseado em uma pesquisa em desenvolvimento auxiliada pela CNPq


Resumo


            Este trabalho pretende sucintamente analisar o pensamento do contador brasileiro.  De forma que apresentando alguns itens que compõe o imaginário do contador mostra que ele está pronto para ser um profissional excelente sendo que a única coisa que o pode barrar é uma mente impregnada por paradigmas muito longe do real.


INTRODUÇAO

             Este trabalho busca um relacionamento entre a estrutura jurídica brasileira e a formação do imaginário do profissional contábil. Quer discutir como a norma jurídica pode tanto beneficiar como estagnar uma ciência tendo seus efeitos repercutindo através da história.            A importância inicial deste trabalho é a de abrir os canais de comunicação entre duas áreas distintas (porém intimamente ligadas) do conhecimento. Além disso, como será exposto, buscar-se-á entender como o Direito influencia as Ciências Contábeis e, utilizando o poder de coerção dado às suas normas, interfere na própria lógica e princípios desta Ciência. Assim será discutido como o Direito por várias décadas reduziu a Contabilidade a um mero objeto dificultando seu crescimento como ciência.
            Quer-se com este estudo discutir porque o jurista deve ser mais cuidadoso quanto à produção normativa e o que prende o contador ao arcaico paradigma do “guarda-livros”. O resultado desse trabalho facilitará às duas ciências verem os acertos e erros de seu relacionamento.
           

Contabilidade e Direito: um eterno relacionamento

Ninguém pode negar que o Direito é uma das ciências que mais influi na vida em sociedade. Este preceito é tão válido que muitos afirmam que o Direito nasce junto com a sociedade, como enuncia o ditado romano “ub societas ib ius”. Dentre as diversas ciências em que se percebe o grande peso das Letras Jurídicas este trabalho destacará as Ciências Contábeis, enfocando, principalmente, o seu agente: o Contador.
            As Ciências Contábeis e o Direito têm um longo histórico de relacionamento. A Contabilidade na forma que a conhecemos hoje tem seu desenvolvimento inicial na Itália nos séculos XII e XVII. Neste mesmo país está o berço do Direito Romano[1], cujos vários princípios e normas são vigentes até os dias de hoje.  A partir daí, devido à necessidade dos Estados de tributarem pessoas físicas e jurídicas e de prestarem contas à sociedade civil, os legisladores encontraram na Contabilidade um meio de combater a corrupção e a sonegação. Esta utilização das Ciências Contábeis como mero instrumento do Estado fez com que as normas jurídicas dos países muitas vezes melhorassem a contabilidade e outras tantas a violassem. 
            Analisando a história oficial brasileira, vemos que o primeiro diploma legal brasileiro sobre Contabilidade data de 1808, quando Dom João VI obriga aos contadores gerais a adoção do método de contabilização por partidas dobradas. Até o ano de 1850 percebe-se que a prática contábil é algo irrelevante, restrita essencialmente à área pública. Então, neste ano surge o Código Comercial Brasileiro, que obriga a manutenção de certos livros fiscais nos estabelecimentos comerciais e o levantamento de um balanço geral anual assinado pelo comerciante. Com essas normas, nota-se o surgimento do guarda-livros (figura que até hoje marca o imaginário coletivo como sendo o profissional contábil), um profissional restrito ao cumprimento da lei e limitado à escrituração, manutenção e guarda dos livros do estabelecimento. Este personagem é encontrado em diversos países; suas características essenciais eram a boa caligrafia e a capacidade de realizar somas e subtrações de modo rápido e seguro sendo responsável pela parte operacional da contabilidade: “a arte da escrituração”.
            Com o aumento dos profissionais dedicados à contabilidade, começam a ser criadas as primeiras escolas especializadas na área. Esta seria uma ótima oportunidade para se iniciar a formação de um pensamento verdadeiramente científico na contabilidade brasileira. Contudo, em 1926, o decreto 17.329/26 que regulamentava o ensino técnico comercial no Brasil frustrou essa chance. “O referido Decreto determinava que o ensino deveria ser principalmente prático. A intenção era formar contadores especialistas em escrituração contábil e livros”.[2] Vale notar que, como se mostrará mais adiante, o decreto não proibia a inserção de matérias de cunho científico, dando uma liberdade “negativa”[3] aos cursos.
            A ano 1932 é marcado pelo Decreto 21.033/32 que exigia a assinatura de um atuário, perito-contábil, contador ou guarda-livros em documentos e livros fiscais das empresas ou estes não teriam efeito jurídico. Este decreto vem a influenciar a profissão de duas formas distintas: (1) aumenta a demanda de profissionais da área contábil, forçando a criação de novos cursos e a edição de livros especializados; (2) reduz o contador a um “despachante” que exerce funções meramente burocráticas e que tem o poder de rubricar os documentos dando-lhes valor legal (isso é um dos fatores que ajudará a estagnar a Contabilidade enquanto Ciência, posto que o profissional se contenta a limitar seus estudos à parte técnica).
            Apenas em 1945 o governo regulamenta o curso superior de Ciências Contábeis e Atuáriais. Contudo, após anos de repressão legal, que criaram o imaginário de um profissional burocrático dificultando a formação de um profissional cientista, estudioso, necessário para a saúde financeira da empresa, encontra-se dificuldade em firmar um curso superior nesta área. “(...) devido à imagem da profissão de Contabilista da época, que não entusiasmava os candidatos ao ensino universitário, e pelo fato de a existência do curso secundário formar uma categoria de profissionais que atendia perfeitamente às necessidades daquilo que se entendia por atribuições do contabilista[4] (atribuições estas meramente legais).
            Em 1976 o governo decide libertar o contabilista promulgando a nova Lei das Sociedades Anônimas, Lei nº 6404/76. Esta inovadora lei, vigente até hoje (apesar de uma nova lei que regulamentara as S/A já ter sido aprovada na Câmara, e estar dependendo de deliberação do senado) dissocia, finalmente, a Contabilidade Fiscal (com finalidade burocrática) da Contabilidade Financeira (utilizada para fins administrativos e que valoriza a análise do ponto de vista do investidor). Esta lei faculta ao Contador a contabilização para fins financeiros, obrigando-o fazer apenas a correção desta para fins fiscais, transformando o lucro contábil em lucro fiscal (conceitos até então confundidos por muitos profissionais como tendo o mesmo significado).
            Nota-se por estas poucas normas citadas acima que esta ciência foi historicamente reprimida e como disse o Professor Antônio Lopes de Sá[5] que os contadores estão sujeitos a erros técnicos deveras graves cometidos pelos diplomatas. Assim, vê-se que anos de uma normatização coercitiva produz um impacto muito grande na mentalidade profissional do contador. Tendo em vista que “todo poder tem uma base ideológica”[6] se esta base vem de uma classe distinta daquela que é normatizada (como ocorre no Brasil onde os parlamentares dificilmente possuem todo conhecimento necessário sobre cada área que eles estão normatizando) e que está sujeita à coerção, neste caso os contabilistas têm que perverter sua ciência e aceitar normas que eles sabem estar incorretas.
           

O Papel dos Conselhos de Fiscalização Profissional Para os Contadores

            Os Conselhos de Fiscalização Profissional hoje no Brasil são pessoas jurídicas de direito privado instituídas por lei para prestarem um serviço público. Desta definição podemos entender que: (a) o Conselho precisa se auto gerir financeiramente, pois é um ente privado; (b) eles devem exercer uma função social em relação à classe que fiscaliza. Vamos nos concentrar nos conselhos de contabilidade que realmente nos interessam.
Como o conselho consegue seus recursos é um ponto claro para seus afiliados, pois nenhum contador pode exercer a função sem pagar uma anuidade e nenhum escritório pode funcionar sem contribuir para a entidade. Além disso, o Conselho tem o poder de aplicar multas aos contadores que violam o Código de Ética e acabam sempre obtendo algum lucro através de uma ou outra publicação entres outras fontes menores.
            Agora qual seria a função social do Conselho Federal de Contabilidade e suas extensões regionais? Entendemos que os conselhos devem fiscalizar os contadores para que eles não prejudiquem o público em geral no cumprimento de sua função. A contabilidade, assim como diversas outras profissões chamadas liberais têm uma grande influência sobre o público em geral. Portanto para que se evitem praticas prejudiciosas aos leigos da função contábil o CFC deve fiscalizar os profissionais. Para esse exercício o CFC atualmente conta com duas armas: o exame de suficiência (que testa as habilidades mínimas para se exercer a profissão contábil) e o código de ética.
O exame de suficiência apesar de ter sido contestado legalmente por não ter o respaldo constitucional é uma iniciativa de grande valor. Ele protege o público em geral de estudantes muitas vezes incapacitados por terem se formado em escolas defasadas. Contudo assim como o exame da OAB ele tem seu risco. Noto-se nos últimos anos a tendência de certas faculdades de direito se transformarem em cursinhos para o Exame da Ordem dos Advogados. Contudo considera-se que esse é um risco que vale a pena correr.
O código de ética é a maior arma nas mãos do CFC contra os maus profissionais. Com os poderes constitucionalmente investidos no conselho este criou uma “constituição dos contadores”. O Código de Ética descreve condutas corretas e dá penas a condutas incorretas dos contadores. Ele é a lei máxima para o exercício profissional na área contábil. Ninguém pode negar a importância de um Código de Ética, que além de proteger a população protege os contadores uns dos outros. Ele, como veremos adiante, é o “escudo” do contador contra praticas antiéticas na profissão.
Mas a função do CFC não pode se restringir a isso. Já que os contadores tanto pagam para essa infra-estrutura. Por isso vemos como valiosa a iniciativa de programas de educação continuada promovidos pelo Conselho. Pois dessa forma está se capacitando o profissional interessado.  

O imaginário do Contador

                        Até o momento podemos analisar rapidamente dois elementos muito importantes na vida do contador: o direito e o Conselho Federal de Contabilidade. Acrescendo a isso o imaginário do público em geral e conhecimento científico por ele adquirido, temos o pensamento do contador. Esse pensamento se manifesta de várias formas. Tentaremos analisar agora, como exemplo o símbolo da contabilidade: o Caduceus.
                        Se fizermos uma desconstrução do Caduceus, segundo Ivan Echeverria[7] teremos, sucintamente:
            • As asas: presteza e zelo na prática profissional.
            • O elmo: a ética geral da profissão
            • As serpentes: a sabedoria
            • O bastão: o poder adquirido por aqueles que dominam a profissão contábil.
            A partir disso podemos da mesma forma desconstruir o pensamento do contador brasileiro.
            Vemos que a presteza profissional representada pelas asas é uma constante na profissão. Se uma pessoa leiga for perguntada sobre contabilidade com certeza exaltará a organização, a boa caligrafia e a habilidade de fazer contas do profissional. Pode se observar isso inclusive em clássicos da literatura[8].
            O elmo é a característica mais forte no contador. Ele se protege sempre atrás das normas. Como vimos anteriormente o direito investiu ao contador uma posição cômoda, posição que ele aceitou e a usa como proteção. Muitos contadores se protegem atrás do poder de assinar balanços como única forma de rendimentos. Além disso, usa o código de ética como uma forma de manutenção de um status quo que não quer mudar.
            Como toda pessoa formada esperasse que o contador possuísse uma sabedoria que o difira dos demais. Tanto o técnico quanto o bacharel adquirem um conhecimento que vai além do senso comum. O bacharel, apesar de muitas vezes exercer uma função meramente técnica tem uma sabedoria científica um pouco maior que o técnico.
            O bastão contém uma carga psicologia extremamente forte. É dele que emana todo o poder, ele é o ponto de equilíbrio da figura. Considera-se então que do conhecimento contábil emana o poder do contador. Assim o profissional contábil deveria investir todos os seus esforços em seus conhecimentos profissionais, pois eles que lhe garantirão a habilidade de exercer a profissão e o distinguirá das outras pessoas. Para o técnico seu conhecimento se limita a prática, assim seu bastão lhe emanaria o poder apenas de escriturar livro e fazer tarefas técnicas da contabilidade. Enquanto que ao bacharel é reservado o poder máximo de utilizar a contabilidade em toda a sua essência. Na prática essa não é a realidade que presenciamos, ambos técnicos e contadores acabam se restringindo a função burocrática subaproveitando seus poderes.
           
A liberdade (considerações finais)

            Ao decorrer do trabalho pudemos expor um breve histórico da contabilidade e do direito, algumas observações sobre o Conselho Federal de Contabilidade[9] e tentamos analisar o pensamento do contador através de um símbolo máximo do seu imaginário profissional. Tudo isso quer levar a um questionamento: o contador hoje está preparado para o futuro?
            A contabilidade é uma profissão do futuro assim como ela é uma profissão do presente. Atualmente a legislação dá uma ampla liberdade a atuação do contador. Ele tem seu poder de rubricar livros e balanços, mas não é só isso. Ele pode utilizar a contabilidade como um instrumento de decisão. Ela hoje está estruturada de forma que de importância à informação para os investidores. Ela é uma grande ferramenta administrativa e não um mero mecanismo burocrático.
            O CFC tem agido no sentido de aprimorar o conhecimento da profissão. Criou o exame de suficiência possui um bem elaborado código de ética e tem o seu programa de educação continuada. Isso merece aplausos, pois o contabilista pode obter retorno do seu “investimento” anual na instituição.
            Agora o grande entrave está na mente do contador. Ele deixou gravar em seu imaginário a figura do guarda-livros, a idéia de que sempre vão precisar dele para cumprir aquela atividade totalmente mecânica que ele está acostumado. O contador foi realmente oprimido pelo direito no passado, ele teve sua ciência prejudicada por descalabros normativos, mas hoje isso não faz mais sentido. O contador nasceu da guarda de livros, mas hoje os sistemas de informação puderam reduzir essa prática agilizando-a. Hoje o contador pode se livrar do estigma da burocracia.   
            Vivemos em um momento onde o que realmente importa é valorizar o seu conhecimento. Como quando foi construída a simbologia do caduceus o conhecimento é o ponto de equilíbrio, a força motriz da evolução. É chegada a hora onde a prática contábil não depende de uma boa caligrafia ao na habilidade de somar. O contador hoje pode aproveitar seu conhecimento para sua verdadeira finalidade, mensurar e analisar os eventos através dessa mensuração. Hoje se acrescenta no balanço patrimonial mais um item, o capital intelectual.
            Por isso, este trabalho vem não só apontar nossa ignorância vem mostrar o que já está às nossas mãos, mas não queremos pegar. Para Kelsen existem dois tipos de liberdade, a positiva que era permitida pela norma advindo desta e a negativa que não era proibida pela norma advindo da lacuna jurídica. Hoje  contador tem o direito de exercer sua ciência para a finalidade que ele deveria exercer. Hoje o único limite para o contador é a sua vontade de utilizar o seu conhecimento, por isso dizemos, contador liberte-se. Liberte-se da sua morosidade, da sua falta de vontade de aprender, do seu medo de se tornar um fóssil no futuro e principalmente da crença de que o contador é um instrumento burocrático. Torne-se realmente um cientista contábil preparado para exercer o papel que o mundo exige do contador, assumindo as posições como “controller” e “cognitor”.

Bibliografia Fundamental

ALF, Ross.  Direito e Justiça. São Paulo: Edipro, 2000.
ANDREZO, Andrea Fernandes.  Excertos da evolução da Contabilidade no Brasil.  Revista de Contabilidade do CRC-SP, São Paulo, v. IV, n. 12, p. 18-40, 2000.
BULGARELLI, Waldirio. O anteprojeto da CVM para a reforma da lei de sociedades por ações brasileira. Revista de Direito Mercantil, Industrial, econômico e Financeiro. São Paulo. v.31. n.86. p.58-62. abr. /jun. 1992.
ECHEVERRIA, Ivan. Revista Brasileira de Contabilidade, Brasília, v. XXVI, n. 107, p. 16-17, 1997.
FERRAZ JR., Tércio Sampaio.  Introdução ao estudo do Direito. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1994.
FUNDAÇÃO INSTITUTO DE PESQUISAS CONTÁBEIS, ATUARIAIS E FINANCEIRAS. Ética geral e profissional em contabilidade. São Paulo: Atlas, 1996.
GATTI, Ivan Carlos. Natureza Jurídica dos Conselhos de Fiscalização dos Profissionais Liberais. Revista Brasileira de Contabilidade, Brasília, v. XXVI, n. 108, p. 16-17, 1997.
KELSEN, Hans. Teoria Pura do Direito. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
MARKY, THOMAS. Curso Elementar de Direito Romano. 8. ed. São Paulo: Editora Saraiva, 1995.
MARTINS, Gilberto de Andrade. Manual para elaboração de monografias e dissertações. 2.ed. São Paulo: Atlas, 2000.
PEDERIVA, João Henrique Accountability, Constituição e contabilidade. Revista de Informação Legislativa. Brasília. v.35. n.140. p, 17-39. out. /dez. 1998.
SÁ, Antônio Lopes de.  Estudo teórico-contábil sobre as entidades—Análise das Normas Brasileiras de Contabilidade do CFC. Revista Brasileira de Contabilidade, Brasília, v. XII, n. 41, p. 4-7, 1982.
______. O verdadeiro sentido do Conhecimento Histórico em Contabilidade. Revista Brasileira de Contabilidade, Brasília, v. XXVI, n. 107, p. 83-85, 1997.
WORLD ACCOUNTING REPORT. London : Financial Times,  1981(Jan, Abr-Set); 1982/93; 1994(Jan-Out, Dez); 1995(Jan-Abr).




[1] Vale salientar que o Direito Romano é um dos mais apegados a rigidez da norma. Nota-se isso quando o Professor Thomas Marky em seu Curso Elementar de Direito Romano, p. 5, define: “O Direito Romano é o complexo de normasvigentes em Roma, desde de sua fundação (lendária, no século VIII a.C.) até a codificação de Justiniano (século VI d.C.)” (grifo nosso)
[2] ANDREZO, Andrea Fernandes do art. cit. p. 22.
[3]  Hans Kelsen, em sua obra Teoria Pura do Direito, conceitua liberdade negativa como algo que não é coibido pela norma.
[4] SILVA, Laércio Baptista da, apud ANDREZO, Andrea Fernandes do art. cit. p. 25. (grifo nosso)
[5] Em seu artigo Estudo teórico-contábil sobre as entidades- Análise das Normas Brasileiras de Contabilidade do CFC.

[6] ROSS, Alf ob. Cit. p. 83
[7] ECHEVERRIA, Ivan art. Cit.
[8] EÇA DE QUEIROS diz em “A relíquia” que por ter boa caligrafia e saber somar a personagem do romance poderia se aposentar trabalhando como guarda-livros.
[9] Entenda-se que essas considerações extendem-se também aos Conselhos Regionais

Este artigo sofreu pequenas mudanças para poder ser postado. O mesmo poderá ser acessado pelo site do Congresso de Contabilidade e Controladoria da USP no link " Anaes 2001".

Fonte: Congresso de Contabilidade e Controladoria da USP.

Matéria postada por Werley Novais.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012


O Profissional de Controladoria no Mercado Brasileiro - Do Surgimento da Profissão aos Dias Atuais


José Ricardo Maia de Siqueira

Professor da UFRJ

Wagner Soltelinho
Graduando da UFRJ


Resumo


Em um trabalho anterior, o pesquisador selecionou quatro anos de anúncios publicados no Jornal do Brasil - 1960, 1970, 1980 e 1989 - buscando a identificação do perfil do profissional de controladoria em cada um destes períodos. O objetivo era avaliar a evolução do controller no Brasil baseado nos anúncios publicados na seção de classificados. Neste trabalho percebe-se no ano de 1960 uma  baixa procura por executivos em geral e de controllers em particular. Em contraste com 1960, o ano de 1970 apresentava um número bastante elevado de anúncios - um total de 38 - que não se modificaria relevantemente nos demais períodos da pesquisa. Tal constatação é um indício de que em algum momento durante a década de 60 houve um crescimento considerável na demanda por estes profissionais. Este trabalho tem por objetivo identificar quando ocorre este incremento na demanda por controllers, buscando localizar indícios do nascimento da profissão no país. Além disso procura-se traçar um perfil da profissão ao longo dos anos até a atualidade.

1. PLANEJAMENTO E CONTROLE

Chiavenato (1985, p. 125-126) divide o planejamento dentro das organizações, bem como o processo de controle, em três níveis: estratégico, tático e operacional. Aquele desenvolvido no mais elevado nível hierárquico organizacional e com maior impacto sobre os destinos da organização é o planejamento estratégico. Este planejamento será operacionalizado, a posteriori, através dos planejamentos tático e operacional.
O planejamento estratégico servirá como um norte que orientará as decisões da empresa. Segundo Santos (1999, p. 163), a “função do planejamento estratégico é permitir que a empresa, da maneira mais eficiente possível, consiga uma vantagem sustentável sobre seus competidores”.
O planejamento estratégico orientará a confecção dos planos tático e operacional, dentre eles destaca-se o orçamento que pode ser definido como o “instrumento de que se valem as empresas para a definição quantitativa dos objetivos e do detalhamento dos fatores necessários para atingi-los” (Walter, 1985, p. 1).
O processo de orçamentação retrata uma característica interessante: o íntimo relacionamento existente entre planejamento e controle. O processo de orçamentação em si é uma atividade de planejamento, no entanto, ao finalizá-lo se terá um instrumento de controle. Esta particularidade é mencionada por Pires & Gaspar (1988, p. 351) que afirmam que ao falar de controle está implícita a idéia de "comparar o que se fez com o que se planejou. Um bom sistema de informações dá ao chefe o grau de compatibilização entre o planejado e o executado”.
Stoner & Freeman (1995, p. 443) relacionam dois tipos de controles: os de pré-ação e os de pós-ação. Os controles de pré-ação ou preventivo tem por objetivo impedir que os problemas ocorram. Os controles preventivos podem assumir diversas formas, até mesmo um maior investimento em recrutamento, seleção e treinamento de pessoal. A premissa que está por trás é “quanto mais alta a qualidade dos administradores e de seus subordinados, menor será a necessidade de controles diretos” (Koontz & Weihrich, 1994, p. 674). Os controles pós-ação são aqueles mais tradicionais, onde se mensura o resultado e, depois, adota-se a ação corretiva.
Os sistemas de controle organizacionais são muito complexos, sendo constituídos por uma série de processos. São eles: planejamento do sistema de controle, feedback, quantificação e armazenamento e recuperação de informações (Richman & Farmer, 1975, p. 225-226). O último dos processos é possivelmente um dos mais importantes nas modernas organizações, devido à rápida mutabilidade do ambiente onde as empresas estão inseridas. Nas atuais condições “informação é poder. Tudo que modifica o acesso à informação escassa e importante, alterará a estrutura de poder nas organizações” (Robbins & De Cenzo, 1995, p. 493).
Isto torna o controller uma peça estratégica dentro das organizações, pois ele é o profissional da informação por excelência. Souza & Souza (2000, p. 70-71) chegam a afirmar que “dependendo das informações reportadas à administração pode haver até uma mudança na visão e missão da empresa”.

2. O PROFISSIONAL DE CONTROLADORIA - DETERMINAÇÃO DO PERFIL

O controller assume diferentes posturas em diferentes organizações. Para se entender o que é o controller é necessário o entendimento prévio do que é controladoria. Almeida, Parisi & Pereira (1999, p. 370) dividem o conceito de controladoria em dois vértices, sendo que em um deles a conceitua como o órgão administrativo que responde “pela disseminação de conhecimento, modelagem e implantação de sistemas de informações”. Nesta conceituação se permite perceber a importância do profissional de controladoria como elemento de geração de informações dentro da organização. No entanto para um melhor entendimento da importância do profissional de controladoria é necessário se efetuar a identificação de suas funções.
Muitos têm sido os autores com descrições de funções do controller.  Kanitz (1976, p. 5-6), propõe seis funções da área de controladoria, são elas: informação, motivação, coordenação, avaliação planejamento e acompanhamento. Já Heckert e Wilson (1963, p. 13-14) fazem menção a cinco, sendo elas: função de planejamento, função de controle, função de relatar, função contábil e outras funções. Se ambas descrições forem comparadas com detalhe se verificará que não há grandes diferenças entre uma e outra.
Horngren (1985, p. 11), baseado na classificação do Financial Executive Institute, propõe uma descrição um pouco mais abrangente com sete funções a serem desempenhadas pelo controller, são elas: planejamento para o controle, relatórios e interpretação, avaliação e assessoramento, administração tributária, relatórios para o governo, proteção de ativos e avaliação econômica.
Planejamento para o controle é estabelecer, “coordenar, e manter, através da gerência autorizada, um plano para o controle das operações”(Anderson & Schmidt, 1963, p. 13-14).
A função de relatórios e interpretação significa medir “a performance entre os planos operacionais aprovados e os padrões, e reportar e interpretar os resultados das operações dos diversos níveis gerenciais” (Heckert & Wilson, 1963, p. 11).
Avaliação e assessoramento pode ser conceituado como a função de analisar e questionar a validade dos objetivos empresariais que são colocados, bem como, dos meios disponíveis para alcançá-los. O controller, pelo seu conhecimento de legislação e por possuir uma visão ampla das operações da organização, é um funcionário estratégico no fornecimento desta visão crítica à administração da empresa. Contudo, tal questionamento deve ir além das considerações legais, chegando até mesmo ao nível ético.
Um amplo conhecimento da legislação sobre tributos é uma característica fundamental para que o controller consiga uma boa administração tributária. Uma gestão tributária com qualidade pode trazer mais recursos do que muitos dos produtos existentes na carteira da empresa.
É fundamental também que o profissional de controladoria tenha bons conhecimentos dos princípios contábeis e da legislação societária para que possa gerar bons relatórios para o governo, bem como, para os demais usuários externos das demonstrações financeiras. Em alguns setores, como o financeiro por exemplo, tais conhecimentos não são suficientes, sendo necessário o aprofundamento na regulamentação específica.
O controller deve fazer com que um sistema de controle interno eficiente seja implantado dentro de uma empresa visando, entre outros objetivos, salvaguardar adequadamente seus ativos (CRC, 1998, p. 19-20). Estes controles internos devem ser montados à luz dos objetivos empresariais, de suas necessidades e de sua cultura organizacional. Sancovschi (1999), por exemplo, alerta para a possibilidade de conflito entre os princípios do controle interno e da reengenharia de processos dentro de um ambiente organizacional.
Finalmente tem-se a avaliação econômica que é a função de acompanhar as “forças econômicas e sociais, assim como as influências do governo e interpretar os efeitos que possam incidir sobre os negócios da empresa” (Yoshitake, 1984, p. 31). Uma habilidade muito valorizada no desempenho desta função é a capacidade de trabalhar com cenários Um cenário pode ser definido como “uma visão consistente do que o futuro poderá vir a ser” (Robbins & Coulter, 1999, p. 270) e trata-se de um poderoso ferramental utilizado na área econômica.
Talvez a principal diferença entre a proposta de Horngren (1985) e as anteriores seja a inclusão da Avaliação Econômica que não tem correspondência nas demais, no entanto, há algumas evidências empíricas sobre a relevância desta função.
A postura do controller frente à administração também é motivo de estudos. Sathe (1983) identifica quatro tipos de controllers segundo sua postura, são eles: independente, envolvido, dividido e forte. Seu trabalho conclui que o mais adequado para as organizações é o  controller forte, pois um único profissional serviria como contraponto para a administração e, ainda, seria responsável pela geração de relatórios, obtendo uma atuação mais eficiente.

3. FLUXO DE CAPITAIS NO BRASIL NA DÉCADA DE 60

Há fortes indícios que sugerem que a demanda por profissionais de controladoria experimentou um forte incremento em algum momento durante os anos 60. Este crescimento na procura destes profissionais parece estar vinculado, em parte,  ao crescimento da importância da indústria na matriz produtiva brasileira, logo, é de grande importância entender o processo de industrialização pelo qual passou o Brasil durante este período.
O país experimentou um forte crescimento industrial no pós-guerra. Prado Júnior (1986, p. 319-320) relaciona este intenso crescimento industrial à alta no índice geral de preços que é acompanhada com grande defasagem pela elevação dos salários, o que “determina uma elevação das receitas das empresas relativamente às suas despesas essencialmente constituídas pela remuneração do trabalho. Eleva-se em consequência a margem de lucros que vão alimentar a acumulação capitalista”. As indústrias foram ainda favorecidas por facilidades de financiamento e por um processo de substituição de importações decorrente da precariedade da balança de pagamentos.
Furtado (1976, p. 100) chama atenção, no entanto, para o fato de que o processo de substituição de importações corresponde a uma segunda etapa no processo de industrialização latino-americano. Em um primeiro momento a industrialização nasce de um aumento na renda da população. “O aumento na produtividade e consequente aumento no poder de compra da população leva à diversificação no padrão geral da demanda, envolvendo ainda um crescimento mais que proporcional na demanda por produtos manufaturados”.
A decorrência deste processo de crescimento industrial foi que o volume físico de produção mais do que triplicou entre os anos de 1947 e 1961 e, consequentemente, no “início dos anos 60, o Brasil transformara-se em um país industrializado, ainda que permanecesse notoriamente subdesenvolvido” (Furtado, 1972, p. 33).
Entretanto, a instabilidade política - que culminou com a sucessão de Jânio Quadros por João Goulart e o Golpe de 1964 - aliada a problemas econômicos não equalizados levam a um declínio considerável na taxa de crescimento de produção industrial de toda a primeira metade dos anos 60. Processo que só seria revertido a partir de 1966.
Pereira (1987, p. 181) destaca que durante a segunda metade dos anos 60 a economia brasileira entra em um novo processo expansionista, “repetindo e tendendo a superar o desempenho expansivo ocorrido na segunda metade dos anos 50”. Acrescenta ainda que isto só foi possível devido a uma série de reformas econômicas implementadas por Roberto Campos e Octávio Gouveia Bulhões entre 1964 e 1966, entre elas: a reforma do mercado de capitais, a reforma tributária, a reforma bancária e a instituição da correção monetária.
Junte-se a isto a retomada dos investimentos diretos estrangeiros no país a partir de 1965, assemelhando-se ao fluxo de capitais existentes na segunda metade dos anos 50 - vide Tabela 1. Enquanto em 1964 os investimentos diretos no país atingiam a inexpressiva marca de US$28 milhões - tratando-se do mais baixo patamar dos anos 60 - em 1965 eles já somam $70 milhões atingindo um máximo de US$136 milhões em 1969 e iniciam os anos 70 com o nível de US$122 milhões.
Este pano de fundo ajuda a explicar o aumento na procura por profissionais de controladoria durante o período. Tal aumento parece ter ocorrido por três razões:

1) a instalação de empresas estrangeiras, notadamente americanas, trouxe ou arraigou a cultura da utilização da área de controladoria para o solo brasileiro;
2) uma maior penetração de empresas multinacionais acirrou a competição, forçando as empresas aqui instaladas, principalmente as nacionais a se reestruturar;
3)com o crescimento econômico as empresas ganharam porte e suas operações aumentaram em complexidade, necessitando de novos profissionais que assegurassem o controle sobre a organização.


Tabela 1 - Investimento Estrangeiro Líquido no País: 1947-70 (em milhões)
Ano
Valor
Ano
Valor
Ano
Valor
Ano
Valor
1947
36
1953
22
1959
124
1965
70
1948
25
1954
11
1960
99
1966
74
1949
5
1955
43
1961
108
1967
76
1950
3
1956
89
1962
69
1968
63
1951
(4)
1957
143
1963
30
1969
136
1952
9
1958
110
1964
28
1970
122
Fonte: BACEN. Boletim do Banco Central do Brasil, fev. 1972


Uma das decorrências de todo este processo em uma esfera micro-econômica é a presença cada vez mais constante do profissional de controladoria nas médias e, principalmente, grandes empresas existentes no país.
           

4. METODOLOGIA DA PESQUISA

Para atingir o objetivo a que este trabalho se propõe será usada a mesma metodologia utilizada anteriormente. Serão selecionados diversos anos e com base nos anúncios publicados no caderno de Classificados de Domingo do Jornal do Brasil, se buscará traçar o perfil do profissional de controladoria no Brasil, do seu surgimento aos dias atuais. Será considerada aqui uma acepção ampla do termo profissional de controladoria, ou seja, não se selecionará apenas os anúncios que procurem controllers, mas também: assistant controllers, gerentes de controladoria, controllers assistentes e designações correlatas.
Cabe relembrar aqui que o objeto de análise desta pesquisa são anúncios publicados na seção de classificados. Tal objeto de estudo possui algumas limitações. Primeiramente, por uma razão econômica, tais anúncios geralmente são sintéticos, o que reduz a riqueza da análise devido à omissão de algumas informações que podem ser relevantes.
Em segundo lugar, como os anúncios têm por objetivo a contratação de funcionários, muitas das informações coletadas podem ter um viés visando aumentar a atratividade da organização aos olhos dos candidatos.
É importante ressaltar, contudo, que apesar de suas limitações os anúncios são fontes importantes de informação, principalmente no tocante à caracterização da função de controladoria em seus primórdios. Trata-se, portanto, de um trabalho eminentemente exploratório visando identificar alguns indícios que poderão servir de insumos em futuras pesquisas.
Os anos abordados pela pesquisa são 1960 a 1969, 1980, 1989, 1991, 1992 e 1999.

5. O SURGIMENTO DE UMA PROFISSÃO - 1960 A 1965

O ano de 1960 é marcado principalmente pela busca de contadores. Durante este período surgem 92 anúncios requisitando tal profissional. Alguns destes podem ser considerados como precursores dos profissionais de controladoria, pois era requisitado o desempenho de funções como: administração tributária e assessoria ao processo decisório. No entanto, a grande maioria dos anúncios - 25% - desejava alguém para supervisionar escritório ou departamento de contabilidade.
Nota-se inclusive a pouca familiaridade na época com o termo controller, já que havia um anúncio procurando um Assistente de Diretoria que tivesse experiência em contabilidade, legislação fiscal, contabilidade industrial e interpretação de balanços, ou seja, um profissional com um perfil bastante próximo ao exigido pela área de controladoria.
Durante o ano de 1961 não há nenhum anúncio procurando controllers, mas há dois bastante interessantes procurando contadores. Um de uma empresa do setor siderúrgico interessado em um contador com experiência em custo industrial e na solução de problemas de organização e controle. O outro, da Lacta S/A procura um profissional para assumir o serviço de contabilidade e controle.
Em 1962, diferente de 1961, encontram-se três anúncios buscando profissionais de controladoria. O primeiro, de uma empresa americana da área farmacêutica, que deseja um controller com conhecimento dos princípios contábeis americanos e legislação tributária brasileira. O interessante neste anúncio é que o profissional será responsável também pela área de tesouraria que não é, a princípio, uma atribuição do controller.
O segundo anúncio não revela muitas informações sobre o cargo. A empresa requisitante é identificada como de grande porte e pertencente ao setor siderúrgico e, curiosamente, exige que o postulante seja brasileiro nato ou naturalizado.
Por último tem-se uma empresa buscando um assistant controller. Este anúncio tem duas particularidades interessantes. Primeiramente ele evidencia a necessidade de um controller assistente que, provavelmente, trabalhará ligado a um controller. Devido ao baixo volume de anúncios de controller, isto é um indício de que nestes primórdios da controladoria no país a necessidade das empresas era suprida pela importação de profissionais ou pela ascensão e treinamento de funcionários do próprio quadro. Em segundo lugar o anúncio requisitava profissionais com formação básica em contabilidade ou economia, dando preferência à segunda.
No ano de 1963 há uma empresa procurando um controlador para ser responsável pela área de custos e orçamentos e outras duas interessadas em controllers assistentes, sendo que uma delas deseja um profissional com experiência em contabilidade, orçamento, impostos e sistemas. Há ainda um anúncio enigmático - já que não esclarece suas atribuições e atributos desejados - procurando um Controller de Ativo Fixo.
Em 1964 existem três anúncios. O primeiro requisitando um profissional que tenha conhecimento de impostos brasileiros. O segundo, de uma indústria americana de porte médio, requisitava um indivíduo com experiência em contabilidade industrial, custos, orçamento e legislação brasileira. Há ainda um outro, de assistant controller, onde se requer o desempenho da função de controle na matriz, fábrica e filiais.
Há um pequeno crescimento na demanda por profissionais de controladoria em 1965. Neste ano são encontrados quatro anúncios voltados especificamente para a área de controladoria e outros três que, apesar de não requisitar especificamente um profissional da área, busca alguém com  suas atribuições. São dois anúncios procurando controllers, sendo que um deles exige conhecimentos de contabilidade, custos e impostos brasileiros e ambos exigem experiência em orçamentação. Há ainda um anúncio de assistant controller com experiência em orçamento, e outro de controlador financeiro para atuar à frente da contabilidade e do setor de controle financeiro.
Além dos casos acima se requisitou um contador (com conhecimento de legislação fiscal e trabalhista, contabilidade e controle), um gerente administrativo (para implementar um sistema de controle financeiro e com conhecimentos de legislação fiscal e trabalhista) e um diretor financeiro assistente (responsável pelo orçamento industrial e comercial da firma, análise de dados estatísticos, confecção de relatórios contábeis e fiscais e controle do planejamento financeiro).
Dois pontos devem ser destacados na análise dos dados coletados na primeira metade da década de 60. Em primeiro lugar, observa-se uma baixa demanda por profissionais de controladoria, possivelmente devido à baixa complexidade dos negócios naquela época, o que levava a uma baixa delegação de autoridade e concentração do poder nas mãos dos proprietários, reduzindo a necessidade de controle. Wilson, Roehl-Anderson & Bragg (1995, p. 20) apontam o aumento da complexidade das operações nas empresas como fator de suma importância no surgimento da função de controladoria.
É possível também que esta baixa demanda tenha também um forte componente cultural. Ainda hoje muitas empresas visualizam investimentos em áreas que não sejam vendas ou produção como consumidores de recursos. Além disso, devido ao forte cunho familiar das organizações, as posições-chave eram ocupadas por membros da família ou funcionários de confiança que trabalhavam há anos com os controladores do negócio, reduzindo assim, supostamente, a necessidade de instrumentos de controle. 
Em segundo lugar, nota-se uma menor complexidade nas atividades do profissional de controladoria. As atribuições listadas em cada anúncio se encaixam apenas em algumas das sete funções elencadas por Horngren (1985).

6. O AUMENTO DA PROCURA - 1966 A 1969

A segunda metade da década de 60 é marcada por um rápido crescimento na demanda por profissionais de controladoria. Enquanto na primeira metade da década o número de anúncios nunca foi superior a cinco, de 1966 a 1969 este total anual nunca foi inferior a oito atingindo um máximo de 20 anúncios em 1968, conforme se pode observar na Tabela 2. Tal aumento na procura por estes profissionais têm explicação, provavelmente, no aumento do fluxo de investimento direto ocorrido neste período trazendo para o país empresas de maior porte e complexidade nas operações e que já estavam familiarizadas com o conceito de controladoria
É importante destacar que do total de anúncios coletados, a grande maioria das empresas se intitulava como de grande porte. Foram encontrados 51 anúncios no período, destes, 25 revelaram o porte da organização - vide Tabela 3. Deste número nenhuma organização se caracterizou como de pequeno porte e apenas uma - em 1968 - como de tamanho médio. A grande maioria - 96% do grupo que revelou o tamanho organizacional - se conceituou como organização de grande porte.
Há que se destacar aqui duas considerações. Primeiramente há um grande número de anúncios - a maioria na verdade - que simplesmente não menciona o tamanho de suas operações. Portanto, apesar do forte indício de que o perfil das contratantes eram empresas de grande porte, isto não pode ser afirmado categoricamente. Em segundo lugar, o conceito de tamanho é bastante subjetivo, podendo variar em função de critérios e setores de atuação. Uma empresa pode ser considerada como de grande porte quando se examina seu faturamento, mas pode ser vista como pequena quando o critério passa a ser o número de funcionários. Além disso, dentro de um setor uma empresa pode ser considerada como grande, mas em outro ela seria considerada como pequena.

Tabela 2 - Anúncios por Ano
Ano
Quantidade de Anúncios
1966
8
1967
12
1968
20
1969
11
1980
35
1989
37
1991
9
1992
11
1999
8

Cabe destacar ainda que os anúncios não fornecem um critério objetivo para se classificar as contratantes, estando esta pesquisa dependente da avaliação que as empresas têm de si mesmas. Avaliação esta que pode estar enviesada pela necessidade da organização de se mostrar mais atrativa ao funcionário, superavaliando seu porte.
Considerando apenas aquelas empresas que revelaram a nacionalidade do capital controlador, a maioria das empresas contratantes no período é americana, representando cerca de 46% do total - vide Tabela 4. Em segundo lugar, com uma certa surpresa, encontram-se as empresas brasileiras - com aproximadamente 38% do total - seguidas pelas empresas com nacionalidade inglesa - um pouco mais de 15%.

Tabela 3 - Tamanho das Empresas Contratantes

Porte
Ano
Sem Esclarecer
Pequeno
Médio
Grande
1966
4
-
-
4
1967
5
-
-
7
1968
10
-
1
9
1969
7
-
-
4
1980
24
-
2
9
1989
26
1
2
8
1991
5
-
3
1
1992
9
-
1
1
1999
6
-
1
1

É lamentável o baixo número de empresas que revelou sua nacionalidade - 13 de um total de 51 anúncios - já que empobrece essa análise. No entanto, há que se considerar que estes números fornecem fortes indícios de que os grupos nacionais ficaram atentos à entrada dos grupos estrangeiros, ao crescimento da complexidade das operações e ao acirramento da competitividade, buscando profissionais que permitissem um melhor acompanhamento de suas atividades.
Tal indício é corroborado pela alta procura por profissionais de controladoria com função de coordenação do processo de planejamento e de geração de relatórios gerenciais, respectivamente, nove e oito anúncios - vide Tabela 5. Apesar da elevada procura de profissionais para o desempenho destas duas funções, a função mais solicitada foi a divulgação de informações contábeis aos usuários externos com 12 anúncios.
Os resultados apresentados no parágrafo anterior reforçam a importância do conhecimento contábil no desempenho do papel do controller dentro do período de tempo em questão. Não é surpresa que a formação básica mais solicitada  nos anúncios tenha sido contabilidade - com um total de 15 requisições - seguida por economia e administração, conforme se pode observar na Tabela 6.

7. CONSOLIDAÇÃO DE UMA FUNÇÃO - ANOS 80

Os anos 80 podem ser considerados como os da consolidação do profissional de controladoria no mercado de trabalho, haja visto o volume de anúncios encontrados nos dois anos pesquisados desta década. Enquanto durante os anos 60 o volume de anúncios dificilmente superou a barreira de uma dezena - só o fazendo nos três últimos anos - nos anos de 1980 e 1989, o total anual foi de, respectivamente, 35 e 37 anúncios - vide Tabela 2.
Quanto ao perfil das empresas contratantes, ele continua bastante semelhante ao apresentado na década de 60, ou seja, basicamente empresas de grande porte. Das empresas que revelaram seu tamanho - um total de 22 - 17 se consideram grandes e 4 se vêem como de médio porte. Ao contrário do observado na década anteriormente analisada, há no ano de 1989 um único representante das empresas de pequeno porte procurando um profissional de controladoria. Dificilmente este caso pode ser considerado como representativo da realidade da década de 80, até porque não há evidenciação empírica para isto.

Tabela 4 - Nacionalidade do Controle Acionário
Ano
S/Informar
Americana
Inglesa
Brasileira
Sueca
Alemã
1966
6
2
-
-
-
-
1967
9
1
1
1
-
-
1968
16
2
1
1
-
-
1969
7
1
-
3
-
-
1980
26
6
-
2
1
-
1989
29
2
1
5
-
-
1991
9
-
-
-
-
-
1992
7
1
-
2
-
1
1999
6
1
-
1
-
-

Novamente um grande número de empresas não forneceu informações sobre a nacionalidade do capital controlador, dos 72 anúncios coletados nos dois anos, apenas 17 forneceram tal informação. Tal qual o observado na segunda metade da década de 60, a maioria das empresas era americana (oito no total), mas desta vez seguido de perto pelas empresas brasileiras - com sete anúncios. Foi detectado ainda uma contratante sueca - em 1980 e outra inglesa - em 1989.
Quanto à forma de atuação do controller, cresceu em muito a participação da função Avaliação e Assessoramento - veja a Tabela 5 - entre as funções desejadas pelas empresas, superando inclusive a de Planejamento para o Controle, que durante a década de 60 havia sido a segunda função mais requisitada.
Tal movimento se aproxima de duas tipologias propostas por Sathe (1983) - a do controller envolvido e a do controller forte. Segundo Sathe ambas as posturas do controller levam a um elevado envolvimento no processo decisório, seja fornecendo alternativas para possíveis cursos de ação, seja questionando planos e ações da gerência. É possível que esta forma de atuação do profissional de controladoria, seja decorrência do processo de profissionalização pelo qual vem passando boa parte das empresas brasileiras.

Tabela 5 - Funções Solicitadas
Ano
1
2
3
4
5
6
7
8
1966
2
1
-
-
4
1
1
3
1967
3
1
1
-
3
2
-
8
1968
4
5
3
4
3
2
-
13
1969
-
1
-
-
2
2
-
6
1980
5
14
6
9
14
4
1
15
1989
3
16
12
17
13
3
-
9
1991
3
3
3
3
3
1
1
3
1992
3
4
3
4
5
-
-
4
1999
2
2
-
3
4
1
-
4
Obs.: 1 - Planejamento para o Controle, 2 - Relatórios e Interpretação, 3 - Avaliação e Assessoramento, 4 - Administração Tributária, 5 - Relatórios para o Governo, 6 - Proteção de Ativos, 7 - Avaliação Econômica, 8 - Não esclareceu a função.

Há que se destacar ainda o crescimento na requisição da função Administração Tributária, decorrência do crescimento no emaranhado tributário resultante do aumento na complexidade da legislação brasileira. Nos anos de 1980 e 1989 haviam 26 anúncios mencionando esta função contra apenas 4 na segunda metade dos anos 60.
A função Relatórios para o Governo continua bastante requisitada, com 27 anúncios - sendo a segunda mais relacionada neste interstício de tempo - o que explica a maior procura por contadores para o exercício da função de Controller - 22 anúncios - seguidos por economistas, administradores e engenheiros, conforme demonstra a Tabela 5.

8. MERCADO ATUAL E TENDÊNCIAS - ANOS 90

Segundo os dados coletados para esta pesquisa, os anos 90 foram marcados por uma queda no número de anúncios solicitando profissionais de controladoria. Nos anos de 1991, 1992 e 1999 foram encontrados 9, 11 e 8 anúncios, respectivamente - vide tabela 2. Esta característica pode ser decorrência de uma série de fatores. Consolidação do profissional de controladoria nas empresas, o que levaria a uma estabilização no número de vagas de controller ou a uma redução na sua taxa de crescimento, recorrendo-se ao mercado somente para fins de reposição dos profissionais existentes. Maior uso de headhunters, que se valeriam de seus bancos de dados ao invés de anúncios de jornais para fins de seleção de profissionais. Maior uso de profissionais expatriados pelas multinacionais, que buscariam no exterior os profissionais expatriados. A Nokia, só para dar um exemplo, recentemente trouxe um grande número de profissionais de outras unidades mundiais. Pelo exposto, há duas possibilidades a se considerar, ou a metodologia utilizada levou a um viés, ou a consolidação da profissão realmente ocorreu. Seja qual for a opção verdadeira, a consequência para fins desta pesquisa é uma só: menor riqueza de informações.

Tabela 6 - Formação Requisitada
Ano
Em Aberto
Contabilidade
Economia
Administração
Engenharia
Direito
1966
5
3
2
1
-
-
1967
7
5
3
-
-
-
1968
13
6
6
1
-
-
1969
9
1
1
1
-
-
1980
23
10
9
7
2
-
1989
21
12
9
9
-
-
1991
4
5
2
2
-
-
1992
6
4
2
2
-
1
1999
2
6
3
3
1
1

Quanto ao porte das empresas contratantes ocorreu um fenômeno interessante na década de 90, o número de empresas de médio porte superou o das de grande porte nos três anos analisados. Este movimento é um forte indício do efeito da globalização nos mercados. Com o aumento da competição as empresas de médio porte tiveram que se adequar para se tornarem mais competitivas. As empresas de médio porte que em outros tempos possuíam uma administração de cunho familiar tiveram que profissionalizar seus quadros. Passou a ser necessário ter um maior controle, entre outras coisas, sobre custos e preços, sem desviar sua atenção do movimento dos novos participantes do mercado, surgindo assim a necessidade de criação da área de controladoria.  
A globalização faz com que Gomes (1997) preveja grandes dificuldades para o processo de controle gerencial dentro das organizações, devido à existência de um maior nível de incerteza, o que faz com que as decisões e comportamentos assumam caráter pouco rotineiro e de difícil estruturação em termos racionais. Um dos caminhos poderá ser a adoção de controles preventivos, fortemente calcados  na busca de recursos humanos de alta qualidade e na internalização por estes dos objetivos e valores organizacionais.
Este fenômeno - o de uma maior participação das empresas de médio porte - pode ser decorrência das atuais condições de mercado. Muitas das novas empresas de alta tecnologia são de médio porte. Estas organizações representam um grande desafio para a controladoria por possuírem centros de custos discricionário de porte considerável com maturação de longo prazo.
Duas estrelas em ascensão do setor são as empresas de biotecnologia e genética. Os resultados preliminares do Projeto Genoma arrefeceram o ânimo dos investidores. Descobriu-se que o número de genes é muito menor do que se esperava e que a maior parte das reações orgânicas se concentram nas proteínas. "Com isso, a expectativa de lucros imediatos, ou mesmo de patentes de um único gene, (...) saiu batendo asas" (Caparelli, 2001, p. 36). São problemas que se colocam frente aos controllers no tocante a gestão de custos, controle do ativo diferido e relacionamento com investidores. No entanto, o setor já traz alguns resultados, como o medicamento Imiglucerase, sintetizado por meio da engenharia genética para tratamento da doença de Gaucher (Ruchaud, 2001, p. 7).
Pela primeira vez se constatou um maior número de contratantes nacionais contra suas equivalentes estrangeiras - apesar do baixo número de empresas que identificou sua nacionalidade. Nos anos de 1991, 1992 e 1999, o maior número de empresas era brasileira, seguidas pelas organizações com nacionalidade americana e alemã, com 3, 2 e 1 anúncios, respectivamente.
As funções mais solicitadas foram Relatórios para o Governo e Planejamento para o Controle com, respectivamente 12 e 11 anúncios. Seguidas de perto pelas funções Administração Tributária e Relatórios e Interpretação com 10 e 9 anúncios, respectivamente.
A formação básica mais requisitada continua a ser de contador, seguida de economistas e administradores. Há ainda um anúncio pedindo profissionais com formação em engenharia e outro, pela primeira vez nesta pesquisa, solicitando alguém com formação em direito.
Ainda no tocante à formação, percebeu-se nestes anos mais recentes que a requisição de algumas habilidades apareceram com grande constância nos anúncios, demonstrando ser uma exigência do mercado. Notoriamente destacam-se o domínio da língua inglesa e de softwares computacionais. Tais habilidades, na verdade, não são mais diferenciais, mas atributos básicos que o candidato deve ter para ser considerado em um processo de seleção.
A busca por profissionais com formação de alto nível passou a ser a tônica do mercado, não sendo incomum a exigência de domínio de uma segunda língua estrangeira ou de uma pós-graduação. O mercado está ávido por profissionais com uma base sólida, segundo Guimarães (2000, p. 2), hoje “a indústria valoriza quem tem títulos”.

9. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por ser esta uma pesquisa exploratória e devido à metodologia adotada - análise de anúncios de classificados - seria pretensão falar em conclusões. Entretanto, alguns fortes indícios surgiram ao longo deste trabalho.
O uso do profissional de controladoria pelas organizações parece ter tido sua gênese na segunda metade da década de 60, quando a procura por controllers e profissionais correlatos - determinada pelo número de anúncios publicados - apresentou um aumento considerável. Tal movimento coincide com o crescimento no volume de investimentos diretos feitos no país por organizações estrangeiras. Tal ingresso teria forçado, provavelmente, um reposicionamento das empresas aqui estabelecidas para se adequarem à nova realidade. Estes novos entrantes com novas práticas passaram a ser um benchmark, fazendo com que as empresas aqui instaladas copiassem muitas das suas práticas administrativas, inclusive a adoção da área de controladoria em suas estruturas organizacionais.
Deve-se ressaltar, no entanto, que a localização em 1962 de um anúncio de assistant controller indica a existência anterior do cargo de controller, o que leva a duas suposições. Primeiramente que nos primórdios da controladoria no país, as empresas, notadamente as multinacionais, se valiam de expatriados com experiência em seu país de origem, onde a controladoria estava em um estágio mais avançado, para desempenho de tal função. Em segundo lugar, que a contratação de profissionais da área de controle teria uma característica cíclica, estando em alta quando as condições econômicas e - notadamente neste período - políticas fossem favoráveis. Considerando-se esta segunda hipótese, o surgimento da função de controladoria não teria ocorrido na década de 60, mas em algum período anterior. Talvez a segunda metade da década de 50, quando também houve um grande ingresso de investimentos diretos vindo do exterior - conforme se pode observar na Tabela 1.
Ao longo dos anos - desde a segunda metade da década de 60 - percebeu-se um alto grau de aderência entre a descrição de funções do controller feita por Horngren (1985) à realidade brasileira. Possivelmente, a única exceção seja a função Avaliação Econômica que surgiu poucas vezes nos anúncios consultados. No entanto, em diversas empresas, como na Asea Brown Bovery, o controller é um cargo estratégico com grandes responsabilidades no planejamento da empresa (D'Ambrosio, 1999). Partindo desta consideração não há como o controller prescindir da função de avaliação econômica. Além disso, da formação básica solicitada nos anúncios, Economia sempre esteve entre as mais requisitadas, sendo a segunda na maioria dos anos e primeira, empatada com Contabilidade, nos anos de 1968 e 1969.
Logo, há fortes evidências sugerindo que Avaliação Econômica é uma função necessária para o desempenho do papel de controller. O fato de não estar sendo mencionada nos anúncios é atribuível, possivelmente, ao custo dos anúncios que faz com que o conteúdo destes seja reduzido. Ou ainda, pode ser reflexo de uma possível assunção por parte das empresas de que o exercício de um cargo tão elevado na cadeia hierárquica organizacional, não possa prescindir de tal função e, consequentemente, estaria implícita em seus atributos.
A pesquisa mostrou claros indícios de que as empresas contratantes são de grande porte, com um grande número de organizações americanas e brasileiras e com interesse em profissionais com formação em ciências contábeis, economia e, em menor grau, administração.
Examinando as requisições de profissionais de controladoria dos últimos anos, ficou claro que o mercado deseja um profissional experiente, com profundos conhecimentos de informática, não raro já experimentado no uso do SAP ou assemelhado, com domínio de uma ou mais línguas estrangeiras, habilitado a trabalhar sob pressão e em equipe, comunicativo e com capacidade de liderar.
O que se depreende desta análise é que o mercado atual exige um profissional de controladoria com sólida formação, compatível com a crescente visão estratégica do cargo, se aproximando cada vez mais da postura do Controller Forte proposta por Sathe (1983).

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Fonte: Congresso de Contabilidade e Controladoria da USP.
Matéria postada por Werley Novais.