domingo, 5 de maio de 2013


Esta matéria foi sugerida pelo Prof. Flávio Dantas e, julgando-a como de extrema relevância para nossos conhecimentos, tomei a liberdade de posta-la. Boa leitura !

Sobram vagas. Faltam talentos.

Como dizem, todas as histórias tem 3 lados. A história contada por um, a história contada pelo outro e a real, que é a soma da visão de ambos os lados.


Quantos de nós já não escutamos histórias de empresas que não conseguem preencher vagas pois  “não existem pessoas com o perfil apropriado e nem tecnicamente qualificadas”. Por outro lado, quantos de nós não temos um monte de amigos talentosos que procuram emprego e não encontram as vagas que pretendem?
Quem tem razão? Os dois….. ou nenhum.
Esta semana li uma pesquisa realizada com 38.000 empregadores em todo o mundo onde 34% dos entrevistados afirmaram “ter dificuldade para preencher vagas devido à falta de talento disponível no mercado”.
Esta pesquisa é mundial, mas vou me ater a alguns dados brasileiros por acreditar que eles  são mais importantes para nós neste momento.
Alguns pontos me chamaram a atenção. Dentre os entrevistados, apenas 18% dos empregadores afirmaram que tem como estratégia para corrigir este problema “escolher pessoas que não tenham habilidades para o trabalho atualmente, mas tenham potencial para aprender/se desenvolver”. Um outro dado mostra que 10% dos entrevistados buscam “formar parcerias com instituições de ensino para elaborar currículos alinhados com as necessidades de talentos da empresa”.
Só mais um dado. Prometo. 37% dos empregadores afirmam oferecer oportunidades de treinamento e desenvolvimento complementar ao quadro de funcionários de modo que eles mesmos possam preencher vagas em aberto na empresa.
Muito bem. O que significa tudo isto? Na minha opinião, significa o que já tenho escrito e falado há algum tempo. Falta comunicação. Isto mesmo. Não existe comunicação entre o mercado e as escolas. Não existe comunicação entre a necessidade efetiva de trabalho e aquilo que se aprende. Estes percentuais são muito baixos.
Vemos todos os dias uma série de profissionais muito bem preparados. Mas preparados pra que? Profissionais jovens, bem formados, estudiosos, com pós-graduação, mestrado e outros cursos que chegam ao mercado de trabalho absolutamente “despreparados “ para a necessidade real do mercado de trabalho.
As empresas querem uma coisa. As escolas ensinam outras. Não existe falta de talentos. Eu ao menos acredito que não. O que existe, é que estes potenciais “talentos” estão sendo desperdiçados por uma falta de equilíbrio entre as suas expectativas e possibilidades com aquilo que as empresam querem, precisam e podem oferecer.
As empresas que possuem programas de trainees coordenados e muito bem idealizados sentem muito menos esta falta. E por que? Simples. Elas oferecem aquilo que elas precisam e extraem destes talentos o seu efetivo potencial.
Precisamos conversar mais. Escolas e empresas. Até vejo um movimento neste sentido, mas acredito que seja muito incipiente. Precisamos desenvolver mais parcerias. Precisamos nos ajudar mais e fazer um pouco mais. Treinar mais. Acreditar mais nos talentos, na personalidade, no caráter, na ética, nas atitudes, na comunicação das pessoas, na capacidade de flexibilização dos profissionais. Estes são os diferenciais de um talento. Não podemos acreditar que existem profissionais prontos, simplesmente porque todos nós precisamos reaprender todos os dias, portanto, ninguém está pronto. Nos aprontamos todos os dias de nossa carreira até o último instante. Se você for empregador e procurar alguém assim, acredite. Está procurando a pessoa certa. Se você for o talento e agir assim, acredite. Alguém vai te encontrar e lhe dar uma oportunidade mais rápido que imagina.  Desejo sucesso a todos, empregadores e talentos. Uns não vivem sem os outros.
Autor: Airton Carlini
Fonte: Revista Exame S/A.
Matéria postada por Werley Novais.


quarta-feira, 1 de maio de 2013


                A criatividade sitiada


Criatividade é um termo da moda. Migrou do mundo das artes, seu tradicional reduto, para o universo corporativo. Sabidinhos inventaram as indústrias criativas, as classes criativas e até a economia criativa. Governos pelo mundo, acima e abaixo do Equador, gostaram e gastaram. Antigamente, o termo usado era indústria cultural, cunhado pelos sabichões de Frankfurt, nos anos 1940. Não era boa coisa, não.
Adorno e Horkheimer consideravam a cultura popular uma fábrica para produção de bens padronizados, destinados a gerar prazeres fáceis e domesticar as massas. Pode-se imaginar o que pensariam sobre as mais salientes indústrias criativas dos nossos tempos, organizadas em torno da moda, da propaganda e dos videogames.
O fato é que a criatividade vem ganhando palco, plateia e subvenções federais. E conquistou também a atenção do mundo corporativo. Afinal, ela está no centro dos processos de concepção de inovações, é capaz de parir novos produtos, originar novos negócios e gerar vultosos lucros para as empresas.
Estudiosos do tema associam a criatividade ao estado de “fluxo”, uma condição de total imersão na atividade criativa, caracterizada por uma postura de entrega, pela automotivação e por um estado de perda da autoconsciência. Neurocientistas têm realizado investigações com instrumentistas de jazz e de outras formas musicais nas quais a improvisação é dominante. Segundo as pesquisas, durante períodos de improvisação criativa, há mudanças significativas na atividade cerebral. Em certas condições, ações espontâneas ocorrem sem a interferência de atividades de supervisão e controle. No cérebro, como nas empresas, a criatividade não parece conviver bem com capatazes.
Os estudos indicam ser a criatividade uma condição mental específica, na qual a atividade cerebral se reconfigura. Tal condição permite à experiência interior e subjetiva do artista dar origem ao estado de fluxo, que por sua vez produz uma atividade ou um resultado criativo, algo novo, verdadeiro, único.
Teresa Amabile, professora da Harvard Business School, investiga há décadas temas como criatividade individual, produtividade e inovação. Seus estudos focam as características dos profissionais talentosos e as condições ambientais necessárias para a criatividade se desenvolver. Organizações com estruturas hierarquizadas, culturas organizacionais coercitivas, chefes centralizadores e ambientes nos quais os profissionais lutam entre si minam o trabalho criativo. Até aqui, nenhuma novidade! A dificuldade é entender por que tantas empresas insistem em extrair criatividade e inovações de funcionários sufocados por modelos organizacionais rígidos e por chefes obcecados pelo controle.
Curiosamente, mesmo companhias que supostamente vivem da criatividade a tratam aos socos e pontapés. Uma pesquisa realizada por Alexandre Romeiro, da FGV-Eaesp, orientado por este escriba, revelou a dura realidade dos trabalhadores criativos. O autor entrevistou profissionais de agências de publicidade, um caso exemplar de criatividade a serviço das forças do mercado. As declarações colhidas ajudam a explicar o jogo de pressões que impele a criatividade e, paradoxalmente, a restringe.
Romeiro aprofundou a trilha de pesquisa aberta por Amabile, observando três fatores condicionantes da criatividade: a natureza coletiva do trabalho, a pressão do tempo e a tensão entre a inovação e a aceitação. O trabalho coletivo geralmente estimula a interação criativa. No entanto, quando há competição excessiva entre pares e grandes egos entram em conflito, então a criatividade sofre. A pressão do tempo, um recurso sempre escasso, estabelece desafios e impele o trabalho criativo. Contudo, o desafio perene de fazer mais com menos, as múltiplas tarefas simultâneas e o permanente estado de caos das empresas aumentam a transpiração e limitam a imaginação. A criatividade viceja quando há espaço para o autor experimentar e trilhar novos caminhos e inovar, produzir algo inédito. Entretanto, esbarra frequentemente no conservadorismo, na inapetência para o novo, em chefes conservadores e em clientes temerosos de ferir os padrões e contrariar os bons costumes.
Nas agências de propaganda, provavelmente em outros setores também, a criatividade vive na corda bamba. Romeiro constatou a precarização da experiência criativa, pela organização (ou falta de organização) do trabalho. Os vilões são a competição predatória entre profissionais e entre equipes, o peso da burocracia, a má gestão do tempo e a ação destemperada de capatazes. Ser criativo, mesmo em uma época que supostamente celebra a inovação, continua a ser uma atividade incerta, arriscada e frequentemente frustrante.
Autor: Thomaz Wood Jr.
Fonte: Carta Capital.
Matéria Postada por Werley Novais.